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“… uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

(Clarice Lispector – Uma aprendizagem…)

é isso.

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“Nada me prende a nada.  
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.  
Anseio com uma angústia de fome de carne  
O que não sei que seja –  
Definidamente pelo indefinido…  
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto  
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.  

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.  
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.  
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.  

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.  
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.  
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.  
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…  

Compreendo a intervalos desconexos;  
Escrevo por lapsos de cansaço;  
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.  
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;  
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;  
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.  

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…  
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,  
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa  
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),  
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas  
Onde supus o meu ser,  
Fogem desmantelados, últimos restos  
Da ilusão final,  
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,  
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.  

Outra vez te revejo,  
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…  
Cidade trist
e e alegre, outra vez sonho aqui…  

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,  
E aqui tornei a voltar, e a voltar.  
E aqui de novo tornei a voltar?  
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,  
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,  
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?  

Outra vez te revejo,  
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.  

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,  
Transeunte inútil de ti e de mim,  
Estrangeiro aqui como em toda a parte,  
Casual na vida como na alma,  
Fantasma a errar em salas de recordações,  
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem  
No castelo maldito de ter que viver…  

Outra vez te revejo,  
Sombra que passa através das sombras, e brilha  
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,  
E entra na noite como um rastro de barco se perde  
Na água que deixa de se ouvir…  

Outra vez te revejo,  
Mas, ai, a mim não me revejo!  
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,  
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –  
Um bocado de ti e de mim!…”

(Lisbon Revisited – Álvaro de Campos) 

Fernando Pessoa lido no parque que deita pés descalços de serem passos. Voz sussurrada que silencia os olhos que pousam no vento que se faz lento. Caminhos novos que se experimentam ao saberem-se de sabor flocos ou pistache. A árvore testemunha o nascer de filmes revisitados com olhos de cor lilás ou amarela. O mundo roda e não tenta se mover para que a estrada seja curta e a bolha não estoure.

Isadora Duncan conta que esse quadro foi uma das inspirações para sua dança, além do “desabrochar das flores, o vôo das abelhas e o dourado alegre e gratuito das laranjas e a papoula da Califórnia” (trecho do livro) e se definia como “uma expressionista da beleza.”.

A declaração de Isadora trouxe-me umas danças, umas danças dos anos idos de ballet, de moderno, de laboratórios aos 9 anos, de contato e improvisação, de afro, de salão… Tantas pernas e braços dançando, buscando um olhar que nasce no espelho, mas que só enxerga mesmo se nada tiver. O corpo que dói e grita, o suor que pinta a face rosada de se permitir só ser dançante.

Meu pai me disse hoje: “dançar faz parte do seu ser”, essa semana uma criatura bonita pensou em mim ao ler este poema:

Canção da Primavera

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo…

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

(Mario Quintana)

Parece-me que todos estão a dançar, quem fala, quem lê, quem toca, quem canta, quem silencia, quem chora e quem ri. O universo todo dança e gira continuamente, as infintas coreografias que improvisamos ao conhecer alguém, as danças que só existiram naquele instante, naquele corredor, naquela sala, naquela rua… E os aplausos que cessam e a cortina que cai. Todo o mundo dança 😉

Canção da tarde no campo

Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Cecília Meireles

Li este poema no início do ano, bem lentamente. Na roda, as crianças embevecidas e eu, calamo-nos e o fim da tarde retumba.

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Véu da Noite

cai o véu
noite vem
lua cheia que não acalanta
ninguém

(Beto Villares / Céu)

Quinta passada saí de casa e me dei com a Lua.
O céu negro, envolto em neblinas, fumaças e incertezas.
Uma janela bem apertada, abria espaço para la Luna.
Ela veio me avisar que está tudo assim…

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“Devemos considerar como perdido, todo o dia em que não tivermos dançado pelo menos uma vez.”

(Friedrich Nietzsche)

Dançar andando, falando, cantando, sonhando, olhando, beijando, suando, sarando, tocando,  vivendo, morrendo… Dançamos antes de falar, coreografamos muitas vidas desde o ventre. Olhos fechados, olhos abertos.

Um giro, pé no chão, pé no salto. O palco é o espaço todo.

Vai dançar. Vem dançar…

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