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(O entrudo no Rio de Janeiro, 1823 – Jean Baptiste Debret)

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral… vai passar

(Chico Buarque e Francis Hime)

A cidade quente derrete o dia vermelho, os sons são fortes e há alguns hiatos quase infinitos, os corpos são carregados pelo vento que entra vagarosamente pela janela da sala. As brincadeiras,  motivadas superficialmente, mascaram temores e receios de quem canta e pula as cores desconhecidas que habitam a própria voz. O estar é não-estar. A batucada que invade o suor, dança e faz festa, olha e tem pressa.

A moça observa, dança e canta. E mesmo com a impressão de que tudo se repete, ela sorri, porque acha que o tempo todo, o ano inteiro tem carnaval.

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