“A qualidade que manifestamos dentro de nós ressoa dentro do outro”

“Felicidade é superação da obediência aos nossos impulsos”

“Para mudar meu comportamento eu pratico o silêncio, assim eu aprendo a parar diante do que surge”

“A pessoa não segue a relação, ela segue os impulsos”

“Não somos confiáveis”

“Vemos o outro de forma coemergente, com nossas estruturas”

“A derrota maior é ficar preso às circunstâncias”

“Vou construir meu dia com que olho?”

“100% dentro e 100% fora”

“Ao chegar em um lugar perturbador, se mantermos o foco na energia, podemos direcioná-la!”

“Ajudar não significa concordar”

“Não vemos que não vemos”

“É mais fácil entender a vacuidade pela forma”

(Lama Padma Samten – Retiro de Inverno de 2010)

* Essas frases foram ditas pelo Lama e estão anotadas em um caderninho que não deu conta dos dias do retiro… Estão 100% fora do contexto e 100% dentro do contexto 😉

Ao chegar no Caminho do Meio, lugar familiar, a água caía torrencialmente e o frio invadia cada canto do alojamento. O retiro começaria no dia seguinte, somente minha cama tinha cobertas. Os primeiros dias a alma deixava-se vencer, gelada, dura, chovendo. A vontade de desistir e terminar tomava pedaços dos meus pensamentos. A tristeza tomou toda energia e desfaleci em uma manhã, ainda consegui ver que naquele instante não chovia e o sol nascia rosa e azul.
No entanto, respirei e fiquei dia-a-dia, noite-a-noite, chuva-a-chuva. Toda a paisagem me acolheu, me renovou, me deu calor.
Esse é o momento perfeito… Há tantos anos tento praticar o silêncio que o Lama explica de tantas formas bonitas, buscando acessar cada poro dos seres… Tento aprender a treinar a não resposta ao impulso, a treinar liberdade frente ao que surge fora/dentro…
A meditação antes do dia acordar, a sanga acolhedora e carinhosa, o Lama apontando a lucidez e o amor… Senti-me protegida, aquecida. Senti amor pelo mundo, amor por cada ser, amor por mim. O mundo cabia dentro de mim.
Lembrei do céu, esse céu no qual tanto confio… Ele esteve lá, chovendo, clareando, escurecendo… nos esperando.
Sigo praticando e aspiro que todos os seres possam sentir a felicidade verdadeira!
EMAHO!!

Anúncios

(Escher)

“O entusiamos e o desânio são inseparáveis. Sempre queremos nos livrar da infelicidade, em lugar de perceber que ela atua juntamente com a alegria. O sentido não está em cultivar um dos lados, em oposição ao outro, mas em relacionar-se adequadamente com o estado em que estamos. O entusiasmo e o desânimo se complementam. Ficamos arrogantes, quando temos somente entusiasmo. Perdemos a capacidade de idealizar, quando temos somente desânimo. Sentir entusiasmo nos anima e nos faz perceber o quanto o mundo é vasto e maravilhoso. Sentir desânimo nos abate. A glória de nosso entusiasmo nos conecta com o sagrado do mundo. Mas, quando viram a mesa e nos sentimos desanimados, somos suavizados. Nosso coração amadurece. Esse processo torna-se a base para compreendermos os outros. Tanto o entusiasmo quanto o desânimo podem ser celebrados. Podemos ser grandes e pequenos ao mesmo tempo”

(Pema Chödrön)

O vento baixo e tingido de sal inundou meu quarto sem cor. O mundo todo reduziu-se a quatro paredes… Uau!

Por um momento respirei devagar para acompanhar as sensações e não apenas deixar elas me conduzirem em uma dança esquisita.

Abri o livro ao lado que me convidou para outra brincadeira, até uma chave sinalizou outras portas possíveis.

A noite adentrou e expandiu a cama e a coberta. Dormi junta ao mundo vasto e misterioso.

“Eu nunca ensinei passos aos meus alunos. Eu falei para que eles apelassem ao espírito, assim como eu apelei ao meu. Arte é apenas isso”

(Isadora Duncan)

Na verdade, foram eles que me disseram para apelar ao meu espírito…

Na verdade, são eles que me ensinam.

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei porque moro ali
Eu não sei porque estou

Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo

Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem

Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz.

(Vanessa da Mata)

Na cidade de pedras o dia amanhece quente e denso, quase sério. Os olhares das janelas são fundos e sem reflexo. E as rodas passam.

Eis que surge a canção e o sorriso. Faz tanto sentido esse balançar, esse vai e vem, essa espera que não espera.

O céu sobre minhas danças me conta das suas andanças… bem dentro, em mim.

“Tempo lento,

espaço rápido,

quanto mais penso,

menos capto.

Se não pego isso

que me passa no íntimo,

importa muito?

Rapto o ritmo.

Espaçotempo ávido,

lento espaçodentro,

quando me aproximo,

simplesmente me desfaço,

apenas o mínimo

em matéria de máximo.”

(Paulo Leminski)

Faz um sol denso, quase invasivo. Faz um vento lento, quase invisível.

Hoje tem tanto calor, tem óculos escuros, tem água, tem suor que timidamente nos lembra da possibilidade de sutileza em nossa própria pele. E há alguns dias, a sensação é de que há horas, era tudo bem diferente… O sol escondia-se sob nuvens brancas e cinzas, com desenhos ousados, o vento parecia querer testar limites da sensibilidade dos poros tão apertadinhos.

Saímos e tinha calor,  saímos e tinha frio. Tinha calor, tinha frio… Eu não vi o tempo mudar, mandar, correr, sofrer, sumir, cair. Eu vi o tempo no tempo.

(O entrudo no Rio de Janeiro, 1823 – Jean Baptiste Debret)

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral… vai passar

(Chico Buarque e Francis Hime)

A cidade quente derrete o dia vermelho, os sons são fortes e há alguns hiatos quase infinitos, os corpos são carregados pelo vento que entra vagarosamente pela janela da sala. As brincadeiras,  motivadas superficialmente, mascaram temores e receios de quem canta e pula as cores desconhecidas que habitam a própria voz. O estar é não-estar. A batucada que invade o suor, dança e faz festa, olha e tem pressa.

A moça observa, dança e canta. E mesmo com a impressão de que tudo se repete, ela sorri, porque acha que o tempo todo, o ano inteiro tem carnaval.

Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol


A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

A ciranda de sereno
Visitando a madrugada
O espanto achei dormindo
Nos sonhos da namorada
Que serena dorme e sonha
Carregada pelo vento
Num andor de nuvem clara

São sete estrelas correndo
Sete juras a jurar
Três Marias, Três Marias
Se cuidem de bom cuidar
No amor e o juramento
Que a estrela D’alva chora

(Lia de Itamaracá/ Edu Lobo)

A vida convida para brincar, entrar na roda,  cantar, dançar, abrir, caminhar junto, fazer ritmo, dar as mãos, ser todos e um só.

“Não atribuir às coisas mais significado do que elas assumem por conta própria; não ver o sofrimento de fora, não medí-lo e chamá-lo grande: o ‘grande sofrimento’… Pois você não sabe se seu coração não cresceu com ele, se essa imensa fadiga não é o crescimento do coração. Paciência, paciência, e não julgar no sofrimento, jamais julgar enquanto ele estiver sobre nós. Não temos uma medida para ele, fazemos comparações e exageramos.”

(Rainer Maria Rilke)

O dia acorda quente e azul, se faz escaldante e depois chora chuvas assustadoras. O corpo tenta acompanhar o movimento, mas os passos se esbarram… E assim a temperatura derruba a intenção de dançar, nasce febre… A garganta arranha, estranha o som… As cordas incham e não podem cantar as palavras… O peito diminui, chia, cansa e não aspira o descanso…

Fazer silêncio, dançar bem lentamente, fechar os poros e tomar remédios fortes, tudo isso enquanto o sol vem, a chuva vai, o vento canta e a noite demora.

“A filha deve lamentar-se. Fico perplexa com o fato de que as mulheres hoje em dia chorarem tão pouco e, quando o fazem, procuram justificativas. Fico preocupada quando a vergonha ou o desábito começam a eliminar uma função natural. Ser árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar. Chorar faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso. E agora, a vida da donzela como era até então, sua compreensão da vida até esse ponto, terminou, e ela desce para outro nível do mundo oculto. E nós continuamos a acompanhá-la. Prosseguimos, mesmo nos sentindo vulneráveis e tão desprovidas de proteção do ego quanto uma árvore cuja casca foi arrancada. No entanto, temos poder já que aprendemos a atirar o diabo para o outro lado do quintal.

A essa altura percebemos na nossa vida que, não importa o que façamos, os planos do nosso ego fogem das nossas mãos. Haverá uma mudança na nossa vida, uma das grandes, independente dos belos planos que o ego maestro-temperamental tenha para o próximo movimento. Nosso próprio destino poderoso começa a governar nossa vida – não o moinho, não a vassoura, não o sono. Acabou-se a vida como a conhecíamos. Desejamos ficar sozinhas, talvez que nos deixem em paz. Não podemos mais confiar na cultura paterna dominante, estamos envolvidas com o primeiro aprendizado da nossa vida verdadeira. Persistimos.

Essa é uma época em que tudo que valorizamos perde sua graça.”

(Clarissa Pínkola Estés)

A coragem de olhar bem no fundo dos olhos e dos poros ainda assusta, ainda faz hesitar entre uma chuva e outra.

“Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum… E o mundo é perfeito
Hum… E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso

Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o Coração diz que é o mais Bonito

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar

Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito”

(Teatro Mágico)

Ao olhar o céu sente-se forte e leve, voa-se no chão e caminha-se no alto. As nuvens brincam de formas e tons, assim como meus pensamentos e sensações. O vento leva a chuva que poderia cair perto, sente-se algumas gotículas geladinhas e aquele desenho que parecia um menino-palhaço não existe mais. Fez-se outro.

Arquivo

Flickr Photos