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E o domingo acordou luminoso de um sol leve e sereno… A manhã entrava pela varanda e desenhava danças pelo chão, pela parede e pela mesa que nos acolheu.

Mulheres, meninas, mães, lobas… em roda, compartilhando das suas verdades e sonhos. A cumplicidade dos anos vividos juntos, o olhar que abraça sem julgamentos tão diferentes femininos jeitos de ser/saber.

Momento raro, de poesia, de amor puro, de mulheres tecendo uma colcha de retalhos com seus ossos recolhidos, seus sonhos doloridos, suas risadas brincantes, suas mãos esvoaçantes.

Que esse encontro inspire nosso amor em todas as direções!

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso  
Trago facão, paixão crua  
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra  
Eu já canto, pio e silvo  
Se fosse minha essa rua  
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra  

Vamos nós dois, vídeo e livros  

Vou ficar na minha e sua  

Isso é mais que bom motivo  

Gorjearei pela terra  

Para dar e ter alívio  

Gorjeando eu fico nua  

Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa  

Águia lá do paraíso  

Passarim, mundo da lua  

Quando não trino, não sirvo  

Caso a bela com a fera  

Canto porque é preciso  

Porque esta vida é árdua  

Pra não perder o juízo

(Ná Ozzetti e Itamar Assumpção)

O meu canto nasce nas pontas das minhas mãos.
Dali abre e volta pela pele, fazendo tudo ficar do avesso.
Assim, sinto o mundo fora/dentro.

E a quarta de cinzas nasceu bem vermelha entre os céus de São Paulo e Porto Alegre. No coração muitas cores e sabores, sem nenhum saber. Só a pulsação firme, no ritmo da paixão que nasce assim, sem explicação.

Tá tudo aceso em mim  

Tá tudo assim tão claro

Tá tudo brilhando em mim

Tudo ligado…

Como se eu fosse um morro iluminado  

Por um âmbar elétrico

 que vazasse dos prédios  

E banhasse a Lagoa até São Conrado  

E ganhasse as Canoas aqui do outro lado

Tudo plugado, tudo me ardendo…

Tá tudo assim queimando em mim  

Como salva de fogos  

Desde que sim eu vim  

Morar nos seus olhos

(Adriana Calcanhoto compôs pra Bethânia cantar)

Há alguns anos comecei a reparar nas namoradeiras aqui e acolá. Inicialmente não entendi essa atração e também não refleti a respeito, apenas deixei surgir e passei a comprá-las e dá-las de presente às pessoas queridas e, certamente, ter uma comigo.

A origem dessa boneca namoradeira, que é bastante produzida em Minas Gerais, tem diferentes explicações. A maioria dos textos afirma que ela é inspirada em mulheres que ficavam na janela a espera do amado.

É uma figura que, a princípio sinaliza algo óbvio. No entanto, o olhar da boneca, dependendo da (o) artista, é longo, enovelado e expressa uma espera. A sensação que tenho é de uma espera presente, uma espera sem expectativas. É uma postura de amar, livre.

A palavra namorar tem origem na expressão espanhola estar em amor, que se tornou o verbo enamorar e em português ficou namorar. A namoradeira vive essa esfera de amor, de estar em/no/para o/com o amor.

A palavra amor pode sugerir diferentes possibilidades de significação e elas, em geral, são movidas por qualidades positivas. E é isso que sinto ao pensar nas namoradeiras, o amor que abarca os tantos possíveis conceitos e associações.

Acredito que esse olhar enovelado, emaranhado, enrolado, mesclado, embolado da namoradeira seja uma forma de estar/ser/olhar o mundo: comigo, com o outro, com o meio.

Ao ler um texto que faz meu coração aquecer, ao planejar aulas que me façam sonhar, ao dar gargalhadas com os amigos, ao cair da chuva tentar sentir seu cheiro, ao dançar sentindo dor, ao abraçar uma criança e tantas outras experiências do cotidiano: podemos vivenciar cada uma a partir do olhar da namoradeira.

Se esquecer do texto que li, se a aula não acontecer como gostaria, se chorar com os amigos, se me encharcar de dor ou não receber um abraço, essas experiências também podem ser vividas a partir do olhar da namoradeira, porque são livres, sem expectativas clichês.

Certamente temos expectativas, metas, objetivos, mas muitas vezes acredito que isso possa ser um perigo e mais nos aprisionar do que direcionar.

A expectativa da namoradeira tem tudo isso, mas ali, naquele brilho enredado do amado, ela confia, ela é. A expectativa que penso possível é essa, emaranhada de amor livre que permite que a vida seja e que nosso olhar acolha carinhosamente cada ação “não planejada”.

Acredito que isso possa ser próximo ao que Nietzsche diz sobre amor fati.

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.”

Penso que esse olhar possa ser aprendido/ensinado no dia-a-dia, na vida-a-vida que nos faz, desfaz e refaz. É um olhar que pode nascer ali, aqui e acolá.

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei porque moro ali
Eu não sei porque estou

Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo

Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem

Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz.

(Vanessa da Mata)

Na cidade de pedras o dia amanhece quente e denso, quase sério. Os olhares das janelas são fundos e sem reflexo. E as rodas passam.

Eis que surge a canção e o sorriso. Faz tanto sentido esse balançar, esse vai e vem, essa espera que não espera.

O céu sobre minhas danças me conta das suas andanças… bem dentro, em mim.

(O entrudo no Rio de Janeiro, 1823 – Jean Baptiste Debret)

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral… vai passar

(Chico Buarque e Francis Hime)

A cidade quente derrete o dia vermelho, os sons são fortes e há alguns hiatos quase infinitos, os corpos são carregados pelo vento que entra vagarosamente pela janela da sala. As brincadeiras,  motivadas superficialmente, mascaram temores e receios de quem canta e pula as cores desconhecidas que habitam a própria voz. O estar é não-estar. A batucada que invade o suor, dança e faz festa, olha e tem pressa.

A moça observa, dança e canta. E mesmo com a impressão de que tudo se repete, ela sorri, porque acha que o tempo todo, o ano inteiro tem carnaval.

Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol


A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

A ciranda de sereno
Visitando a madrugada
O espanto achei dormindo
Nos sonhos da namorada
Que serena dorme e sonha
Carregada pelo vento
Num andor de nuvem clara

São sete estrelas correndo
Sete juras a jurar
Três Marias, Três Marias
Se cuidem de bom cuidar
No amor e o juramento
Que a estrela D’alva chora

(Lia de Itamaracá/ Edu Lobo)

A vida convida para brincar, entrar na roda,  cantar, dançar, abrir, caminhar junto, fazer ritmo, dar as mãos, ser todos e um só.

“A filha deve lamentar-se. Fico perplexa com o fato de que as mulheres hoje em dia chorarem tão pouco e, quando o fazem, procuram justificativas. Fico preocupada quando a vergonha ou o desábito começam a eliminar uma função natural. Ser árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar. Chorar faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso. E agora, a vida da donzela como era até então, sua compreensão da vida até esse ponto, terminou, e ela desce para outro nível do mundo oculto. E nós continuamos a acompanhá-la. Prosseguimos, mesmo nos sentindo vulneráveis e tão desprovidas de proteção do ego quanto uma árvore cuja casca foi arrancada. No entanto, temos poder já que aprendemos a atirar o diabo para o outro lado do quintal.

A essa altura percebemos na nossa vida que, não importa o que façamos, os planos do nosso ego fogem das nossas mãos. Haverá uma mudança na nossa vida, uma das grandes, independente dos belos planos que o ego maestro-temperamental tenha para o próximo movimento. Nosso próprio destino poderoso começa a governar nossa vida – não o moinho, não a vassoura, não o sono. Acabou-se a vida como a conhecíamos. Desejamos ficar sozinhas, talvez que nos deixem em paz. Não podemos mais confiar na cultura paterna dominante, estamos envolvidas com o primeiro aprendizado da nossa vida verdadeira. Persistimos.

Essa é uma época em que tudo que valorizamos perde sua graça.”

(Clarissa Pínkola Estés)

A coragem de olhar bem no fundo dos olhos e dos poros ainda assusta, ainda faz hesitar entre uma chuva e outra.

“Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum… E o mundo é perfeito
Hum… E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso

Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o Coração diz que é o mais Bonito

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar

Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito”

(Teatro Mágico)

Ao olhar o céu sente-se forte e leve, voa-se no chão e caminha-se no alto. As nuvens brincam de formas e tons, assim como meus pensamentos e sensações. O vento leva a chuva que poderia cair perto, sente-se algumas gotículas geladinhas e aquele desenho que parecia um menino-palhaço não existe mais. Fez-se outro.

“Dorme, dorme babilônia
Quanto mais quietinha fica
Mais aumenta a insônia
E desperta a retina
Mais atiça a procura
Ao silêncio que inspira

E que pelo ar flutua
Sussurrando pr’onde ir

Vou saindo pela rua
Deixo o som me conduzir
Saio no cordão da insônia
Num bocejo que faz rir

E que pelo ar flutua
Sussurrando pr’onde ir

Vou saindo pela rua
Deixo o som me conduzir
Saio no cordão da insônia
Num bocejo que faz rir

Vou sem medo de altura
Sem perigo de cair
Dorme, dorme babilônia
Faz meu sonho existir.”

(Céu e Beto Villares)

Fechar os olhos e não dormir. A mente colorida de lembranças, ilusões, sonhos e tudo se mistura parecendo tão palpável quanto o cabelo que escorre pelo travesseiro. A respiração se confunde com o piscar de olhos, não se nota, não parte, se parte e reparte em pequenas inspirações, e algumas expirações. A noite adentra acordada e a insônia se faz companheira novamente. O cansaço permanece e se avoluma dentro dos olhos secos e impávidos.

Acordo. Dormi?

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