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É assim que os gaúchos se referem às janelas. Penso que hoje faça todo sentido… já que as minhas aberturas serão todas coloridas!

janela

“Só pra curtir
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No canal de panamá

Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Por que é você que sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Só teu sorriso esculpe

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão

Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pros lares de rubis
Pensando nisso
Pensando em ti

Senti felicidade sem fim
Se for passar precisos sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir

Ficar feliz isso sim

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão

Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador”

(Carlinhos Brown – Mares de ti)

Comentei há um tempo sobre esse estar em mim, que pode ser a sós ou em meio a uma multidão, pode ser por algumas nuvens ou algumas estações. Sinto um sorriso surgir sempre que essa sensação volta, por outras vezes sinto a dor surgindo no meio do peito.

Estamos sozinhos, com nossos próprios problemas, nossos próprios sonhos, nossa própria dor, nossa própria fome. E nem reparamos que logo ali, há um ser que sente assim também: resolve,  sonha, dói, come.

Tento dançar nesse labirinto que nos abisma há poucos poros, uns dos outros.

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“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.”

(Vinicius de Moraes – Para uma menina com uma flor)

A flor, a menina, o Nounouse, o jardim, a poesia, o canto e o gosto de olhar, olhar o instante que nasce aí na chuva, no sol e no carinho que se faz na pétala dos olhos do seu amor.

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” … a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo”

(Mario Benedetti)

E fica escuro, mas sempre tem uns brilhos que parecem refletir o que se liquefaz.

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(Monet – Impressão: nascer do sol)

Bem te vi,
bem te vi andar por um jardim em flor
chamando os bichos de amor,
sua boca pingava mel
Bem te quis, bem te quis
e ainda quero muito mais
Maior que a imensidão da paz
e bem maior que o sol

Onde estás?

Voei por este céu azul

Andei estradas do além, onde estará meu bem?

Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez?
Me beije só mais uma vez,
depois volte pra lá

(Paulinho Pedra Azul)

O fim, então, se faz ao nascer do dia.

A noite sussurra as lágrimas deitadas no silêncio e abraçadas pelo vento.

No luto finito, adormece-se.

Adeus.

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Hoje acordei sem lembrar
Se vivi ou se sonhei
Você aqui nesse lugar
Que eu ainda não deixei

Vou ficar?
Quanto tempo vou esperar?
E eu não sei o que vou fazer, não

Nem precisei revelar
Sua foto não tirei
Como tirei pra dançar
Alguém que avistei

Tempo atrás
Esse tempo está lá trás
E eu não tenho mais o que fazer, não

Eu ainda gosto dela
Mas, ela já não gosta tanto assim
A porta ainda está aberta
Mas da janela já não entra luz
E eu ainda penso nela
Mas, ela já não pensa mais em mim, em mim, não

Ainda vejo o luar
Refletido na areia
Aqui na frente desse mar
Sua boca eu beijei

Quis ficar
Só com ela eu quis ficar
E agora ela me deixou

Eu ainda gosto dela
Mas, ela já não gosta tanto assim
A porta ainda está aberta
Mas da janela já não entra luz
E eu ainda penso nela
Mas, ela já não pensa mais em mim
Eu vou deixar a porta aberta

Pra que ela entre e traga a sua luz

(Nando Reis e Samuel Rosa)

As ruas passando pelos carros, a retina passando pela música. Tudo em alta velocidade na câmera lenta.  O corpo se balança, a noite chega, a viagem do dia termina.

A impressão de que a vida é uma música que toca no rádio enquanto se vai de um sonho a outro é nítida…

A luz que eu penso entrar pela janela, às vezes, sai do centro de mim.

É só voltar a uivar.

(quadro: Anita Malfatti, A Ventania)

Está tarde, o sono se perdeu no silêncio da noite que atormenta o tuim que ecoa na mente.

Ando tão insatisfeita de coisas tantas que tenho tentado me evitar.

Os pensamentos atordoados e grosseiros que se perpetuam durante a noite. Os sonhos que poderiam ser contos, se tornam prisões e ilusões de fantasias nunca antes imaginadas.

A sensação é de taquicardia. Até quando o céu repousa.

Posso saber o pulso em qualquer pedaço da pele, sem ao menos tocá-la.

A alma está do lado de fora.

Do lado de dentro, só vento.

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“… uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

(Clarice Lispector – Uma aprendizagem…)

é isso.

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Vamos Foder o Dia Inteiro?

Vamos ter um filho?
Vamos escolher o nome dele?
Deixa eu te alegrar quando você estiver triste.
Te ninar quando você estiver cansada.
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu te fazer uma massagem com creme?
Vamos aprender a tocar piano juntos?
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu ajoelhar e beijar tua mão.
Vamos ser tão felizes que fiquemos calmos.
Tão calmos que fiquemos fortes.
Tão fortes que possamos ajudar a todos os amigos que precisarem.
Vamos foder o dia inteiro.

Vamos aceitar tudo que o outro é.
Defender tudo que o outro é.
Amar tudo que o outro é.
Vamos foder o dia inteiro.

(Domingos de Oliveira)

… essa me fez parar há um ano quando ouvi, e me faz parar quando leio… e me fez voar e me faz toda chuva…

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“Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.”

(Carlos Drummond de Andrade) 

Tantas borboletas me tonteiam de casulos invisíveis. O sono é incompleto e insuficente para dias e noites em feto que se nasce. As chuvas não são plurais, ainda que venham muitas e o sol engane cada suor que escorre do canto do poro que ainda não sabe se é frio. A cama ainda não existe, o colchão de ar, de mar, de armar, de amar.

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