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O eco nasceu no quarto pequeno. O piso, os armários de parede e eu ficamos a sentir o vento gelado que tomava conta do espaço antes tão colorido e quase apertado… A sexta-feira entardece entre prédios ao horizonte coroados pelo laranja forte e o azul degradé. Da janela ouço algum cachorro, outro carro e movimentos de chegadas e partidas.

Demoradamente olho o quarto, a rua, as pessoas, as lojas, as flores, as árvores, as escolas e tudo, tudo segue. Daqui alguns dias não estarei por aqui e o dia vai nascer, a noite vai nascer, as crianças vão crescer…

Meu coração é invadido por imensa gratidão pela cidade que me  acolheu e nutriu. Levo cada olhar dentro.

 

 

É assim que os gaúchos se referem às janelas. Penso que hoje faça todo sentido… já que as minhas aberturas serão todas coloridas!

Cada passo dado cabe dentro de mim. Cada passo a se dar refaz os caminhos andados.

As histórias vividas moram aí/aqui. As histórias a se viver moram em todo lugar.

Levo comigo, sob o mesmo céu, todo amor, todo sol.

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso  
Trago facão, paixão crua  
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra  
Eu já canto, pio e silvo  
Se fosse minha essa rua  
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra  

Vamos nós dois, vídeo e livros  

Vou ficar na minha e sua  

Isso é mais que bom motivo  

Gorjearei pela terra  

Para dar e ter alívio  

Gorjeando eu fico nua  

Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa  

Águia lá do paraíso  

Passarim, mundo da lua  

Quando não trino, não sirvo  

Caso a bela com a fera  

Canto porque é preciso  

Porque esta vida é árdua  

Pra não perder o juízo

(Ná Ozzetti e Itamar Assumpção)

O meu canto nasce nas pontas das minhas mãos.
Dali abre e volta pela pele, fazendo tudo ficar do avesso.
Assim, sinto o mundo fora/dentro.

“2011 vai ser o mundo que a gente puder construir melhor”

“Todos nós somos pais e filhos uns dos outros”

“As pessoas não são boas ou ruins. Temos que perder essa ingenuidade de culpar!”

“Nossa natureza é ampla como o céu”

“Não somos os personagens, somos a capacidade de eleger os personagens […] Capacidade de liberdade vivendo inteiramente o personagem”

(Lama Padma Santem)

Lama, gratidão… gratidão! Para lembrar dos votos… e refazê-los.

Cadê a esfinge de pedra que ficava ali
Virou areia
Cadê a floresta que o mar já avistou dali
Virou areia
Cadê a mulher que esperava o pescador
Virou areia
Cadê o castelo onde um dia já dormiu um rei
Virou areia
E o livro que o dedo de Deus deixou escrita a lei
Virou areia
Cadê o sudário do salvador
Virou areia

Areia a lua batendo no chão do terreiro
Areia o barro batido subindo no ar
Areia o menino sentado na beira da praia
Areia fazendo com a mão castelo no mar
E a onda que cerquei e que passou
Virou areia
Nasceu no mar e na terra se acabou
Virou areia

Cadê a voz que encantava multidão, cadê
Virou areia
Cadê o passado o presente a paixão
Virou areia
Cadê a muralha do imperador
Virou areia

(Lenine/ Bráulio Tavares)

Lembra, lembra…

Esquece não!

Tudo vira lixo
Tudo pode virar lixo
Carta de amor vira lixo
Conta pra pagar vira lixo
Seja como for tudo pode virar lixo
Namorado, gato, tio
Até seu pavio
Também pode virar lixo
Tudo que se acende se apaga
Fósforo se apaga
Vela, incêndio, lamparina
O olho da menina até o seu
Tudo pode se apagar
Tudo pode se acabar
E virar lixo…

(Chico Cesar/ Suley Mesquita)

A Ceumar cantando essa música faz cada frase ser leve… Lembrar que “tudo pode se acabar” é importante e nos faz alerta para cada passo, cada dança, cada sol e cada chuva que ainda não chegou.

“A qualidade que manifestamos dentro de nós ressoa dentro do outro”

“Felicidade é superação da obediência aos nossos impulsos”

“Para mudar meu comportamento eu pratico o silêncio, assim eu aprendo a parar diante do que surge”

“A pessoa não segue a relação, ela segue os impulsos”

“Não somos confiáveis”

“Vemos o outro de forma coemergente, com nossas estruturas”

“A derrota maior é ficar preso às circunstâncias”

“Vou construir meu dia com que olho?”

“100% dentro e 100% fora”

“Ao chegar em um lugar perturbador, se mantermos o foco na energia, podemos direcioná-la!”

“Ajudar não significa concordar”

“Não vemos que não vemos”

“É mais fácil entender a vacuidade pela forma”

(Lama Padma Samten – Retiro de Inverno de 2010)

* Essas frases foram ditas pelo Lama e estão anotadas em um caderninho que não deu conta dos dias do retiro… Estão 100% fora do contexto e 100% dentro do contexto 😉

Ao chegar no Caminho do Meio, lugar familiar, a água caía torrencialmente e o frio invadia cada canto do alojamento. O retiro começaria no dia seguinte, somente minha cama tinha cobertas. Os primeiros dias a alma deixava-se vencer, gelada, dura, chovendo. A vontade de desistir e terminar tomava pedaços dos meus pensamentos. A tristeza tomou toda energia e desfaleci em uma manhã, ainda consegui ver que naquele instante não chovia e o sol nascia rosa e azul.
No entanto, respirei e fiquei dia-a-dia, noite-a-noite, chuva-a-chuva. Toda a paisagem me acolheu, me renovou, me deu calor.
Esse é o momento perfeito… Há tantos anos tento praticar o silêncio que o Lama explica de tantas formas bonitas, buscando acessar cada poro dos seres… Tento aprender a treinar a não resposta ao impulso, a treinar liberdade frente ao que surge fora/dentro…
A meditação antes do dia acordar, a sanga acolhedora e carinhosa, o Lama apontando a lucidez e o amor… Senti-me protegida, aquecida. Senti amor pelo mundo, amor por cada ser, amor por mim. O mundo cabia dentro de mim.
Lembrei do céu, esse céu no qual tanto confio… Ele esteve lá, chovendo, clareando, escurecendo… nos esperando.
Sigo praticando e aspiro que todos os seres possam sentir a felicidade verdadeira!
EMAHO!!

(Escher)

“O entusiamos e o desânio são inseparáveis. Sempre queremos nos livrar da infelicidade, em lugar de perceber que ela atua juntamente com a alegria. O sentido não está em cultivar um dos lados, em oposição ao outro, mas em relacionar-se adequadamente com o estado em que estamos. O entusiasmo e o desânimo se complementam. Ficamos arrogantes, quando temos somente entusiasmo. Perdemos a capacidade de idealizar, quando temos somente desânimo. Sentir entusiasmo nos anima e nos faz perceber o quanto o mundo é vasto e maravilhoso. Sentir desânimo nos abate. A glória de nosso entusiasmo nos conecta com o sagrado do mundo. Mas, quando viram a mesa e nos sentimos desanimados, somos suavizados. Nosso coração amadurece. Esse processo torna-se a base para compreendermos os outros. Tanto o entusiasmo quanto o desânimo podem ser celebrados. Podemos ser grandes e pequenos ao mesmo tempo”

(Pema Chödrön)

O vento baixo e tingido de sal inundou meu quarto sem cor. O mundo todo reduziu-se a quatro paredes… Uau!

Por um momento respirei devagar para acompanhar as sensações e não apenas deixar elas me conduzirem em uma dança esquisita.

Abri o livro ao lado que me convidou para outra brincadeira, até uma chave sinalizou outras portas possíveis.

A noite adentrou e expandiu a cama e a coberta. Dormi junta ao mundo vasto e misterioso.

“Eu nunca ensinei passos aos meus alunos. Eu falei para que eles apelassem ao espírito, assim como eu apelei ao meu. Arte é apenas isso”

(Isadora Duncan)

Na verdade, foram eles que me disseram para apelar ao meu espírito…

Na verdade, são eles que me ensinam.

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