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Há alguns anos comecei a reparar nas namoradeiras aqui e acolá. Inicialmente não entendi essa atração e também não refleti a respeito, apenas deixei surgir e passei a comprá-las e dá-las de presente às pessoas queridas e, certamente, ter uma comigo.

A origem dessa boneca namoradeira, que é bastante produzida em Minas Gerais, tem diferentes explicações. A maioria dos textos afirma que ela é inspirada em mulheres que ficavam na janela a espera do amado.

É uma figura que, a princípio sinaliza algo óbvio. No entanto, o olhar da boneca, dependendo da (o) artista, é longo, enovelado e expressa uma espera. A sensação que tenho é de uma espera presente, uma espera sem expectativas. É uma postura de amar, livre.

A palavra namorar tem origem na expressão espanhola estar em amor, que se tornou o verbo enamorar e em português ficou namorar. A namoradeira vive essa esfera de amor, de estar em/no/para o/com o amor.

A palavra amor pode sugerir diferentes possibilidades de significação e elas, em geral, são movidas por qualidades positivas. E é isso que sinto ao pensar nas namoradeiras, o amor que abarca os tantos possíveis conceitos e associações.

Acredito que esse olhar enovelado, emaranhado, enrolado, mesclado, embolado da namoradeira seja uma forma de estar/ser/olhar o mundo: comigo, com o outro, com o meio.

Ao ler um texto que faz meu coração aquecer, ao planejar aulas que me façam sonhar, ao dar gargalhadas com os amigos, ao cair da chuva tentar sentir seu cheiro, ao dançar sentindo dor, ao abraçar uma criança e tantas outras experiências do cotidiano: podemos vivenciar cada uma a partir do olhar da namoradeira.

Se esquecer do texto que li, se a aula não acontecer como gostaria, se chorar com os amigos, se me encharcar de dor ou não receber um abraço, essas experiências também podem ser vividas a partir do olhar da namoradeira, porque são livres, sem expectativas clichês.

Certamente temos expectativas, metas, objetivos, mas muitas vezes acredito que isso possa ser um perigo e mais nos aprisionar do que direcionar.

A expectativa da namoradeira tem tudo isso, mas ali, naquele brilho enredado do amado, ela confia, ela é. A expectativa que penso possível é essa, emaranhada de amor livre que permite que a vida seja e que nosso olhar acolha carinhosamente cada ação “não planejada”.

Acredito que isso possa ser próximo ao que Nietzsche diz sobre amor fati.

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.”

Penso que esse olhar possa ser aprendido/ensinado no dia-a-dia, na vida-a-vida que nos faz, desfaz e refaz. É um olhar que pode nascer ali, aqui e acolá.

(Escher)

“O entusiamos e o desânio são inseparáveis. Sempre queremos nos livrar da infelicidade, em lugar de perceber que ela atua juntamente com a alegria. O sentido não está em cultivar um dos lados, em oposição ao outro, mas em relacionar-se adequadamente com o estado em que estamos. O entusiasmo e o desânimo se complementam. Ficamos arrogantes, quando temos somente entusiasmo. Perdemos a capacidade de idealizar, quando temos somente desânimo. Sentir entusiasmo nos anima e nos faz perceber o quanto o mundo é vasto e maravilhoso. Sentir desânimo nos abate. A glória de nosso entusiasmo nos conecta com o sagrado do mundo. Mas, quando viram a mesa e nos sentimos desanimados, somos suavizados. Nosso coração amadurece. Esse processo torna-se a base para compreendermos os outros. Tanto o entusiasmo quanto o desânimo podem ser celebrados. Podemos ser grandes e pequenos ao mesmo tempo”

(Pema Chödrön)

O vento baixo e tingido de sal inundou meu quarto sem cor. O mundo todo reduziu-se a quatro paredes… Uau!

Por um momento respirei devagar para acompanhar as sensações e não apenas deixar elas me conduzirem em uma dança esquisita.

Abri o livro ao lado que me convidou para outra brincadeira, até uma chave sinalizou outras portas possíveis.

A noite adentrou e expandiu a cama e a coberta. Dormi junta ao mundo vasto e misterioso.

“Eu nunca ensinei passos aos meus alunos. Eu falei para que eles apelassem ao espírito, assim como eu apelei ao meu. Arte é apenas isso”

(Isadora Duncan)

Na verdade, foram eles que me disseram para apelar ao meu espírito…

Na verdade, são eles que me ensinam.

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei porque moro ali
Eu não sei porque estou

Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo

Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem

Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz.

(Vanessa da Mata)

Na cidade de pedras o dia amanhece quente e denso, quase sério. Os olhares das janelas são fundos e sem reflexo. E as rodas passam.

Eis que surge a canção e o sorriso. Faz tanto sentido esse balançar, esse vai e vem, essa espera que não espera.

O céu sobre minhas danças me conta das suas andanças… bem dentro, em mim.

Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol


A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

A ciranda de sereno
Visitando a madrugada
O espanto achei dormindo
Nos sonhos da namorada
Que serena dorme e sonha
Carregada pelo vento
Num andor de nuvem clara

São sete estrelas correndo
Sete juras a jurar
Três Marias, Três Marias
Se cuidem de bom cuidar
No amor e o juramento
Que a estrela D’alva chora

(Lia de Itamaracá/ Edu Lobo)

A vida convida para brincar, entrar na roda,  cantar, dançar, abrir, caminhar junto, fazer ritmo, dar as mãos, ser todos e um só.

bailarina

“não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase”

(Paulo Leminski)

Ando lenta e silenciosamente entre músicas, haikais, cores, letras, rabiscos, correções, máquina de escrever, artes marciais, bambus, poesias, caminhos, labirintos, vidros e bolsa aberta.

Ali, o pouco que me ocupa, sentou junto para assistir a chuva no vídeo. Um transbordamento de leituras possíveis, faixa preta em dança. O fôlego para sentir o calor brincando com a saia florida.

Pouco do passo / Transborda / Por um triz / Toca

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… na sua postura, na minha postura, na postura dele, na postura dela, na postura deles…

Eu só existo aqui porque você existe aí,  portanto você só existe aí porque eu existo aqui. Aí, aqui, aqui, aí… Onde?

Ecoa, coa, acolha…


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Assisti “Doutores da Alegria – o filme” (2005). O documentário é sobre uma organização que tem como objetivo, levar alegria a crianças hospitalizadas, seus familiares e profissionais da área da saúde. O palhaço, vestido de médico, especializado em “Besteirologia” visita crianças duas vezes por semana nos hospitais, não para disfarçar a doença, mas para possibilitar alegria, lembrar da essência, lembrar da brincadeira, do riso.

Os doutores da alegria exercem a liberdade e oferecem essa possibilidade para os seres que estão no hospital. Ali, naquele lugar em que se vê agulha, soro, olheira, tristeza, cheira-se álcool, éter ou algo parecido… De repente, chegam criaturas vestidas de médicos, com seus narizes vermelhos e lembram, que é sim possível brincar, rir, dançar e cantar, mesmo ao lado da morte.

Sincero e poético. De rir e chorar.

samba

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver

(Chico Buarque)

A batucada inflama o ar, o frio enfeita as roupas coloridas, as saias convidam e a roda se faz.

Para entrar: umbigada, para sair: umbigada.

E sambam todas as cores, todos os corpos, todos amores. E tem brincadeira, tem palmas, tem sedução, tem crença, tem velho e tem novo.

Samba de roda,vem sambar nessa roda?

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“Que todas as crianças possam morar com suas famílias.”

“Que todos os animais sejam felizes.”

“Que as pessoas não joguem lixo no chão, nem nos rios.”

“Que todas as pessoas do muuuuuundo sejam felizes!”

(Crianças na sanga kids)

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The Falls Of Falloch / Eas Fallach

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