sonhando

No quarto, já despida sobre a cama, não conseguia adormecer. Seu corpo pesava-lhe, existia além dela mesma como um estranho. Sentia-o palpitante, aceso. Fechou a luz e os olhos, tentou fugir, dormir. Mas continuou por longas horas a percrustar-se, a vigiar o sangue que se arrastava grosso pelas suas veias como um animal bêbado. E a pensar. Como não se conhecia até então. Aquelas formas finas e ligeiras, aquelas linhas delicadas de adolescente. Abriam-se, respiravam sufocadas e cheias de si mesmas até o limite.

De madrugada a viração alisou a cama, acenou as cortinas. Joana foi serenando suavemente. A frescura do fim da noite acariciou-lhe o corpo dolorido. O cansaço tomou-a devagar e de repente exausta entregou-se a um sono profundo.”

(Clarice Lispetor)

Noites tantas e tontas. O vento sussurra qualquer coisa pela fresta da janela que olha devagar o corpo queimar, se fazer e brilhar.

A estrela se vê, o céu sorri.

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