O eco nasceu no quarto pequeno. O piso, os armários de parede e eu ficamos a sentir o vento gelado que tomava conta do espaço antes tão colorido e quase apertado… A sexta-feira entardece entre prédios ao horizonte coroados pelo laranja forte e o azul degradé. Da janela ouço algum cachorro, outro carro e movimentos de chegadas e partidas.

Demoradamente olho o quarto, a rua, as pessoas, as lojas, as flores, as árvores, as escolas e tudo, tudo segue. Daqui alguns dias não estarei por aqui e o dia vai nascer, a noite vai nascer, as crianças vão crescer…

Meu coração é invadido por imensa gratidão pela cidade que me  acolheu e nutriu. Levo cada olhar dentro.

 

 

É assim que os gaúchos se referem às janelas. Penso que hoje faça todo sentido… já que as minhas aberturas serão todas coloridas!

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E o domingo acordou luminoso de um sol leve e sereno… A manhã entrava pela varanda e desenhava danças pelo chão, pela parede e pela mesa que nos acolheu.

Mulheres, meninas, mães, lobas… em roda, compartilhando das suas verdades e sonhos. A cumplicidade dos anos vividos juntos, o olhar que abraça sem julgamentos tão diferentes femininos jeitos de ser/saber.

Momento raro, de poesia, de amor puro, de mulheres tecendo uma colcha de retalhos com seus ossos recolhidos, seus sonhos doloridos, suas risadas brincantes, suas mãos esvoaçantes.

Que esse encontro inspire nosso amor em todas as direções!

Cada passo dado cabe dentro de mim. Cada passo a se dar refaz os caminhos andados.

As histórias vividas moram aí/aqui. As histórias a se viver moram em todo lugar.

Levo comigo, sob o mesmo céu, todo amor, todo sol.

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso  
Trago facão, paixão crua  
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra  
Eu já canto, pio e silvo  
Se fosse minha essa rua  
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra  

Vamos nós dois, vídeo e livros  

Vou ficar na minha e sua  

Isso é mais que bom motivo  

Gorjearei pela terra  

Para dar e ter alívio  

Gorjeando eu fico nua  

Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa  

Águia lá do paraíso  

Passarim, mundo da lua  

Quando não trino, não sirvo  

Caso a bela com a fera  

Canto porque é preciso  

Porque esta vida é árdua  

Pra não perder o juízo

(Ná Ozzetti e Itamar Assumpção)

O meu canto nasce nas pontas das minhas mãos.
Dali abre e volta pela pele, fazendo tudo ficar do avesso.
Assim, sinto o mundo fora/dentro.

E a quarta de cinzas nasceu bem vermelha entre os céus de São Paulo e Porto Alegre. No coração muitas cores e sabores, sem nenhum saber. Só a pulsação firme, no ritmo da paixão que nasce assim, sem explicação.

Tá tudo aceso em mim  

Tá tudo assim tão claro

Tá tudo brilhando em mim

Tudo ligado…

Como se eu fosse um morro iluminado  

Por um âmbar elétrico

 que vazasse dos prédios  

E banhasse a Lagoa até São Conrado  

E ganhasse as Canoas aqui do outro lado

Tudo plugado, tudo me ardendo…

Tá tudo assim queimando em mim  

Como salva de fogos  

Desde que sim eu vim  

Morar nos seus olhos

(Adriana Calcanhoto compôs pra Bethânia cantar)

Há alguns anos comecei a reparar nas namoradeiras aqui e acolá. Inicialmente não entendi essa atração e também não refleti a respeito, apenas deixei surgir e passei a comprá-las e dá-las de presente às pessoas queridas e, certamente, ter uma comigo.

A origem dessa boneca namoradeira, que é bastante produzida em Minas Gerais, tem diferentes explicações. A maioria dos textos afirma que ela é inspirada em mulheres que ficavam na janela a espera do amado.

É uma figura que, a princípio sinaliza algo óbvio. No entanto, o olhar da boneca, dependendo da (o) artista, é longo, enovelado e expressa uma espera. A sensação que tenho é de uma espera presente, uma espera sem expectativas. É uma postura de amar, livre.

A palavra namorar tem origem na expressão espanhola estar em amor, que se tornou o verbo enamorar e em português ficou namorar. A namoradeira vive essa esfera de amor, de estar em/no/para o/com o amor.

A palavra amor pode sugerir diferentes possibilidades de significação e elas, em geral, são movidas por qualidades positivas. E é isso que sinto ao pensar nas namoradeiras, o amor que abarca os tantos possíveis conceitos e associações.

Acredito que esse olhar enovelado, emaranhado, enrolado, mesclado, embolado da namoradeira seja uma forma de estar/ser/olhar o mundo: comigo, com o outro, com o meio.

Ao ler um texto que faz meu coração aquecer, ao planejar aulas que me façam sonhar, ao dar gargalhadas com os amigos, ao cair da chuva tentar sentir seu cheiro, ao dançar sentindo dor, ao abraçar uma criança e tantas outras experiências do cotidiano: podemos vivenciar cada uma a partir do olhar da namoradeira.

Se esquecer do texto que li, se a aula não acontecer como gostaria, se chorar com os amigos, se me encharcar de dor ou não receber um abraço, essas experiências também podem ser vividas a partir do olhar da namoradeira, porque são livres, sem expectativas clichês.

Certamente temos expectativas, metas, objetivos, mas muitas vezes acredito que isso possa ser um perigo e mais nos aprisionar do que direcionar.

A expectativa da namoradeira tem tudo isso, mas ali, naquele brilho enredado do amado, ela confia, ela é. A expectativa que penso possível é essa, emaranhada de amor livre que permite que a vida seja e que nosso olhar acolha carinhosamente cada ação “não planejada”.

Acredito que isso possa ser próximo ao que Nietzsche diz sobre amor fati.

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.”

Penso que esse olhar possa ser aprendido/ensinado no dia-a-dia, na vida-a-vida que nos faz, desfaz e refaz. É um olhar que pode nascer ali, aqui e acolá.

“2011 vai ser o mundo que a gente puder construir melhor”

“Todos nós somos pais e filhos uns dos outros”

“As pessoas não são boas ou ruins. Temos que perder essa ingenuidade de culpar!”

“Nossa natureza é ampla como o céu”

“Não somos os personagens, somos a capacidade de eleger os personagens […] Capacidade de liberdade vivendo inteiramente o personagem”

(Lama Padma Santem)

Lama, gratidão… gratidão! Para lembrar dos votos… e refazê-los.

Cadê a esfinge de pedra que ficava ali
Virou areia
Cadê a floresta que o mar já avistou dali
Virou areia
Cadê a mulher que esperava o pescador
Virou areia
Cadê o castelo onde um dia já dormiu um rei
Virou areia
E o livro que o dedo de Deus deixou escrita a lei
Virou areia
Cadê o sudário do salvador
Virou areia

Areia a lua batendo no chão do terreiro
Areia o barro batido subindo no ar
Areia o menino sentado na beira da praia
Areia fazendo com a mão castelo no mar
E a onda que cerquei e que passou
Virou areia
Nasceu no mar e na terra se acabou
Virou areia

Cadê a voz que encantava multidão, cadê
Virou areia
Cadê o passado o presente a paixão
Virou areia
Cadê a muralha do imperador
Virou areia

(Lenine/ Bráulio Tavares)

Lembra, lembra…

Esquece não!

Tudo vira lixo
Tudo pode virar lixo
Carta de amor vira lixo
Conta pra pagar vira lixo
Seja como for tudo pode virar lixo
Namorado, gato, tio
Até seu pavio
Também pode virar lixo
Tudo que se acende se apaga
Fósforo se apaga
Vela, incêndio, lamparina
O olho da menina até o seu
Tudo pode se apagar
Tudo pode se acabar
E virar lixo…

(Chico Cesar/ Suley Mesquita)

A Ceumar cantando essa música faz cada frase ser leve… Lembrar que “tudo pode se acabar” é importante e nos faz alerta para cada passo, cada dança, cada sol e cada chuva que ainda não chegou.

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