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A fotografia não existiu, mas existiu o vento no rosto, o cabelo voando, o mar beijando a roda, o caminho riscado na areia e desfeito pela onda.

Pedalar correndo, devagar, não pedalar, tirar as mãos, andar com uma mão só, afundar na areia fofa, brincar de fugir da água, cansar as pernas, suar, machucar porque esquece de ser criança.

Lembra! E aposta corrida, olha o céu, o mar, a montanha, o sol e a chuva. Descansa a bicicleta enquanto se mergulha nas ondas e lava o sangue, o suor e o sorriso marítimo.

O dia começando e o dia terminando, a brisa piegas do clima de praia bonita afagou cada sorriso desenhado no horizonte.

Pela noite a areia poderia ser qualquer coisa e a lua espiava de leve,  a espuma traçava o limite do espaço entre o pedalar e o sonhar.

O cheiro do sal adoçou o instante.

p.s. é muito gostoso andar de bicicleta na beira do mar…

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“Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem.”

(Clarissa Pínkola Estés)

O dia anda acordando diferente, o sol tem uma cor mais forte, a chuva é mais cortante. É como se eu tivesse virado do avesso. E me visto do lado de dentro enquanto olho para fora.

Qualquer caminhar que se ande ou interrompa é só mais um salto, mais um uivo, mais uma dança que faço na vida.

Surpreendo-me com o que encontro no espelho quando amanheço.

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Mia Senhora,
És de lua e beleza,
És um pranto do avesso,
És um anjo in verso,
Em presença e peso,
Atrevo-me e atravesso
Pra perto do peito teu

Teu sagrado e tua besteira,
Teu cuidado e tua maneira de discordar da dor,
De descobrir abrigo entre tanto amor,
Entretanto a dúvida,
A musica que casou,
Um certo surto que não veio

Há uma alma em mim,
Há uma calma que não condiz
Com a nossa pressa
Com o resta que nos resta
Lamentavelmente eu sou assim

Um tanto disperso
As vezes desapareço
Pois depois recomeço
Mas antes me esqueço

Nossa sina é se ensinar
A sina nossa é.

(Nossa Sina – O Teatro Mágico)

Dia desses assisti uma cena bem bonita: uma mocinha sentada sozinha no banco do outro ônibus olhava pra fora fixando-se em ‘nada’. De repente, ela desenhou um sorriso calmo e confortável.

O nosso aprendizado do dia-a-dia, da vida-a-vida… Inevitavelmente também sorri…

Tem um silêncio que canta baixo e uma chuva que esquenta a pele. Como um sorriso enquanto se olha pelo vidro do ônibus e se enxerga o sentimento do lado de fora.

As ruas rasgando o céu azul ou cinza, tanto faz, as cores que nascem ali se desfazem e fazem do lado de dentro.

E anda-se devagar.

E ensina-se a vida e a morte.

E esquece-se.

E lembra-se.

E aprende-se.

E amanhece-se.

Se.

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“A pessoa não pode escolher o que acontece, mas pode escolher o que fazer com o que acontece.”

(Lama Padma Samten)

Parar e só ficar. Observar e se cercar de si. Abrir-se vagarosamente, inspirando e expirando.

Observar e se se cercar do mundo. Abrir-se vagarosamente, inspirando e expirando.

Observar e se cercar do mundo em si. Abrir-se vagarosamente, inspirando e expirando.

Observar.

Não observar.

Estar/Só ser/ Ser não.

Dar a mão. Compaixão.

Inspira, expira.

“A nossa felicidade depende das relações que estabelecemos, inclusive conosco mesmo.”

(Lama Samten)

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No quarto, já despida sobre a cama, não conseguia adormecer. Seu corpo pesava-lhe, existia além dela mesma como um estranho. Sentia-o palpitante, aceso. Fechou a luz e os olhos, tentou fugir, dormir. Mas continuou por longas horas a percrustar-se, a vigiar o sangue que se arrastava grosso pelas suas veias como um animal bêbado. E a pensar. Como não se conhecia até então. Aquelas formas finas e ligeiras, aquelas linhas delicadas de adolescente. Abriam-se, respiravam sufocadas e cheias de si mesmas até o limite.

De madrugada a viração alisou a cama, acenou as cortinas. Joana foi serenando suavemente. A frescura do fim da noite acariciou-lhe o corpo dolorido. O cansaço tomou-a devagar e de repente exausta entregou-se a um sono profundo.”

(Clarice Lispetor)

Noites tantas e tontas. O vento sussurra qualquer coisa pela fresta da janela que olha devagar o corpo queimar, se fazer e brilhar.

A estrela se vê, o céu sorri.

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Poema de Natal – Vinicius de Moraes)

Lê-se, fala-se, intui-se, sabe-se que no natal comemoramos o nascimento. Pensei que a imagem de uma criança nos remete, inevitavelmente, ao nascimento. Mas e a imagem de uma pessoa mais velha?

Ela também não nasce? Agora?

Feliz Nascer, Renascer…Se ser!

(esse poema do Vinicius me cala, se cala, acalanta…)

 

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O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta …

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo…
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol …
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

(Alberto Caeiro)

Temos tantos olhares, tantos possíveis mundos nascentes, e nos achamos aqui, assim, sem chão, sem roupa, sem nome.

Nos achamos ali, no reflexo mais próximo, que acontece a cada inspirar… a cada troca de ar.

“Se você não me olhar, como é que eu posso me ver?” grita Denise Stoklos.

Saí rouca da peça.


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” … a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo”

(Mario Benedetti)

E fica escuro, mas sempre tem uns brilhos que parecem refletir o que se liquefaz.

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Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

(Clarice Lispector – Dá-me tua mão)

O dia acorda um tanto desajeitado, nublado e insípido… estranhamente o corpo pesa e dá forma ao primeiro esticar de mãos na cama vermelha. A noite fora coberta de sonhos velozes e em sépia.

Em volta, ouve-se a ânsia de querer ser sombra.

Na volta, o silêncio aguarda qualquer cor.

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(Monet – Impressão: nascer do sol)

Bem te vi,
bem te vi andar por um jardim em flor
chamando os bichos de amor,
sua boca pingava mel
Bem te quis, bem te quis
e ainda quero muito mais
Maior que a imensidão da paz
e bem maior que o sol

Onde estás?

Voei por este céu azul

Andei estradas do além, onde estará meu bem?

Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez?
Me beije só mais uma vez,
depois volte pra lá

(Paulinho Pedra Azul)

O fim, então, se faz ao nascer do dia.

A noite sussurra as lágrimas deitadas no silêncio e abraçadas pelo vento.

No luto finito, adormece-se.

Adeus.

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