felicidade

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos”

(Moska)

A sensação do eterno retorno tem-se feito tão presente, sinto um vai-e-vem constante, tal qual o balanço do parque. A fuga, a mordida, a risada, a piada…
Mas tem uma diferença! Tem um olhar de girassol, um olhar amarelo mesmo, olhar de sol, quente que derrete esse frio nascente de inverno.
E nada romântico ou poético! Acontece sempre igual, a ânsia, a música alta, porque as dores e risos são do mesmo filme. É que… agora tenho a sensação de ver esse filme… e chega a ser engraçado.
Ver-se, rir-se, desfazer-se, ter-se, ser-se…

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“Que todas as crianças possam morar com suas famílias.”

“Que todos os animais sejam felizes.”

“Que as pessoas não joguem lixo no chão, nem nos rios.”

“Que todas as pessoas do muuuuuundo sejam felizes!”

(Crianças na sanga kids)

impermanente

“No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.

O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou: – Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.

Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma .

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida… Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile . Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.

Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.”

(Martha Medeiros)

E só silêncio aqui dentro.

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“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Aqui da minha janela o sol se põe nas folhas da bananeira. Lá, mais longe, vê-se alguns prédios, que ganham até uma cor quente, ainda que outono.

O som é qualquer um que música nenhuma poderia chegar tão perto. Um cachorro, uma senhora, uma criança, umas folhas, um pássaro, umas panelas, umas roupas no varal e minha porta que dobra e parece uma sanfona.

O mundo inteiro dentro do meu quarto, uma festa! E pula, e come e canta! Os livros filmando cenas imprevistas, as músicas fazendo piruetas na cozinha!

O silêncio meditativo. O estar em mim que se amplia na festa, na roupa, na dança, na cama, no junto, no nenhum e no qualquer um.

Essa sensação de estranhamento:

“- Oi, meu nome é eu.”

pateo

The heart is a bloom, shoots up through the stony ground
But there’s no room, no space to rent in this town
You’re out of luck and the reason that you had to care,
The traffic is stuck and you’re not moving anywhere.
You thought you’d found a friend to take you out of this place
Someone you could lend a hand in return for grace

It’s a beautiful day
The sky falls and you feel like it’s a beautiful day
Don’t let it get away

You’re on the road but you’ve got no destination
You’re in the mud, in the maze of her imagination
You love this town even if that doesn’t ring true
You’ve been all over and it’s been all over you

It’s a beautiful day
Don’t let it get away
it’s a beautiful day

Touch me, take me to that other place
Teach me, I know I’m not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the bedouin fires at night
See the oil fields at first light and,
See the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colours came out

It was a beautiful day
Don’t let it get away
Beautiful day

Touch me, take me to that other place
Reach me, I know I’m not a hopeless case

What you don’t have you don’t need it now
What you don’t know you can feel it somehow
What you don’t have you don’t need it now
You don’t need it now

Was a Beautiful day…

(U2)

A rua que era tribo.

Imensidão. Borbulhos de gentes, perfumes escuros, passos largos e discretos.

A história que se faz/fez ao caminhar pelos rios/ruas se descortina no céu cinzento, nascendo azul. As igrejas cheias ecoam o silêncio da São Paulo de Piratininga. O bonde rasgando leste/oeste, os cavalos a motor. Olha longe.

O rio que transborda e carrega-nos. Nus.

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começa desde o aquecimento e as batidas já ecoam forte no sangue. Não se sabe se o calor é de fora pra dentro ou de dentro pra fora…

O som espesso, o canto leve e familiar dos meninos, os movimentos densos. Cada parte do corpo que se move – ou é movida – traz em si o corpo inteiro.

A alfaia foi dar o ar da graça e retumbou ocupando todo o espaço, dançando junto com todas as percussões africanas.

Dançar quase rindo de tanta alegria. O ar é sagrado, respira-se pelos poros, pela boca, pelos olhos. Prazer em ver os corpos dançantes fortes, leves e lindos.

Os orixás são desenhados nos braços, pernas, gestos e suas naturezas nos invadem. Durante a aula surge energia, fôlego, vontade, força, brilho, mar, sol e tempestade.

O rito é importante: reverencia-se a dança, a música, os instrumentos, os músicos, os dançantes, os que aprendem e o que ensina .

Reverencia-se a dança.

Ao sair não há fome, sede, sono, dor, cansaço, delírio, prazer… Só há a Dança.

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“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

(Carlos Drummond de Andrade)

E surge uma pedra de fogo no centro do corpo, que resfria cada parte do sangue. O frio invade, a boca bate, os pelos voam e os olhos tremem.

Respira devagar e longamente.

A pedra poderia ter nome? Dor, culpa, raiva… ou qualquer outra coisa que me definhe.

Respira devagar e longamente.

O vento cobre o abismo aberto e acarinha a ferida aberta.

Respira devagar e longamente.

O abismo é a pedra, o centro do corpo, o sangue, o frio, a lágrima, o beijo, a água, o riso, a dor, o calor, o medo.

Respira, devagar e longamente.

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“Entre les Murs”, (França, 2008)

“O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta”

Inevitável lembrar da música da Marisa Monte.

Durante o filme: decepção, injustiça, sorriso, vontade de levantar do cinema e entrar na escola, compaixão… Tanto sentimento brotando junto e contraditório…

Lembro fácil da escola aqui, como aluna e como professora. A vontade de salvar o mundo, de abrir os olhos, de encontrar saídas.

A sensação que tive é de já ter uma trilha, e na mata fechada que há em volta ninguém se arrisca. Começa do mesmo jeito e acaba do mesmo jeito.

Que outro caminho podemos tentar, descobrir, ouvir, sentir?

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“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.”

(Vinicius de Moraes – Para uma menina com uma flor)

A flor, a menina, o Nounouse, o jardim, a poesia, o canto e o gosto de olhar, olhar o instante que nasce aí na chuva, no sol e no carinho que se faz na pétala dos olhos do seu amor.

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A fotografia não existiu, mas existiu o vento no rosto, o cabelo voando, o mar beijando a roda, o caminho riscado na areia e desfeito pela onda.

Pedalar correndo, devagar, não pedalar, tirar as mãos, andar com uma mão só, afundar na areia fofa, brincar de fugir da água, cansar as pernas, suar, machucar porque esquece de ser criança.

Lembra! E aposta corrida, olha o céu, o mar, a montanha, o sol e a chuva. Descansa a bicicleta enquanto se mergulha nas ondas e lava o sangue, o suor e o sorriso marítimo.

O dia começando e o dia terminando, a brisa piegas do clima de praia bonita afagou cada sorriso desenhado no horizonte.

Pela noite a areia poderia ser qualquer coisa e a lua espiava de leve,  a espuma traçava o limite do espaço entre o pedalar e o sonhar.

O cheiro do sal adoçou o instante.

p.s. é muito gostoso andar de bicicleta na beira do mar…

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