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“A maior dor do vento é não ser colorido”
(Mario Quintana)
Hoje o dia se fez azul, tão azul e tão quente, que me pareceu uma provocação ao dia de ontem que se molhou, e adormeceu frio. O vento veio balançar os brincos e cabelos, veio brincar de jogar ameixas e folhas secas nos pratos e copos de sucos, veio se fazer presente de forma indecente na saia rodada.
O vento que trouxe a chuva de quinta, que levou as nuvens para outro lugar, que soprou mansinho nos braços não foi visto, tampoco, notado. Via-se o colorido da saia, do brinco, via-se a ameixa engraçadinha.
E o vento veio, se foi, volta e vai, brinca, sacode, silencia, dança, balança, silencia… faz e faz voltas até ser percebido.
Ele vem contar da mudança permanente, da cor e da não-cor, da chuva e do sol, do silêncio e do som e da dança suspensa na minha respiração e na sua.

“Hoje o dia pousou na minha cabeça, e clareou!”
Esse é o sol que pousa na minha janela.
Esse é o sol que nos amanhece.
Esse é o mesmo sol daí/daqui.
“não há sol a sós”
(Arnaldo Antunes)
O sol invade as cores da parede do meu quarto e faz quente o piso frio. As folhas da bananeira enfeitam os prédios quadrados e fazem curva a fotografia do fim daquele sábado. O som interfere no humor de quem ficou sentada o dia todo ouvindo e movimenta redondo as cadeiras. Não se sabe se é minha janela, suas lentes, minha vista, ou se sonhamos mais um dia.

“um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar”
(Chico Science)
A chuva amanheceu cantando nas folhas e me acompanhou pelo dia. Fez-me companhia e umedeceu os pés que teimavam dançar no chão molhado. O céu alvo, não limitava um horizonte e as cores residiam francas e calmas. As gotas caíram leves, brincaram de dar sustos nos calçados tímidos e nas calças indiferentes.
A chuva anoiteceu ninando meu desejo de se fazer noite. O escuro iluminava forte, a alma inquieta e pesada desejou se fazer água. Então, dançar no ar, até subir bem alto! E cair, brincando e enfeitando noites de meninas dançadeiras.
“pode estar escrito em algum lugar, ou a gente escreve ao caminhar”
(Bruna Lombardi)
p.s. obrigada pelo lugar!

“Só pra curtir
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No canal de panamá
Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Por que é você que sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Só teu sorriso esculpe
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pros lares de rubis
Pensando nisso
Pensando em ti
Senti felicidade sem fim
Se for passar precisos sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador”
(Carlinhos Brown – Mares de ti)
Comentei há um tempo sobre esse estar em mim, que pode ser a sós ou em meio a uma multidão, pode ser por algumas nuvens ou algumas estações. Sinto um sorriso surgir sempre que essa sensação volta, por outras vezes sinto a dor surgindo no meio do peito.
Estamos sozinhos, com nossos próprios problemas, nossos próprios sonhos, nossa própria dor, nossa própria fome. E nem reparamos que logo ali, há um ser que sente assim também: resolve, sonha, dói, come.
Tento dançar nesse labirinto que nos abisma há poucos poros, uns dos outros.

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver
(Chico Buarque)
A batucada inflama o ar, o frio enfeita as roupas coloridas, as saias convidam e a roda se faz.
Para entrar: umbigada, para sair: umbigada.
E sambam todas as cores, todos os corpos, todos amores. E tem brincadeira, tem palmas, tem sedução, tem crença, tem velho e tem novo.
Samba de roda,vem sambar nessa roda?

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim
Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim
É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos
Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou
E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou
Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos”
(Moska)
A sensação do eterno retorno tem-se feito tão presente, sinto um vai-e-vem constante, tal qual o balanço do parque. A fuga, a mordida, a risada, a piada…
Mas tem uma diferença! Tem um olhar de girassol, um olhar amarelo mesmo, olhar de sol, quente que derrete esse frio nascente de inverno.
E nada romântico ou poético! Acontece sempre igual, a ânsia, a música alta, porque as dores e risos são do mesmo filme. É que… agora tenho a sensação de ver esse filme… e chega a ser engraçado.
Ver-se, rir-se, desfazer-se, ter-se, ser-se…

“No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.
O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou: – Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.
Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.
Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.
Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma .
No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.
Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.
Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida… Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile . Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.
Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.”
(Martha Medeiros)
E só silêncio aqui dentro.

começa desde o aquecimento e as batidas já ecoam forte no sangue. Não se sabe se o calor é de fora pra dentro ou de dentro pra fora…
O som espesso, o canto leve e familiar dos meninos, os movimentos densos. Cada parte do corpo que se move – ou é movida – traz em si o corpo inteiro.
A alfaia foi dar o ar da graça e retumbou ocupando todo o espaço, dançando junto com todas as percussões africanas.
Dançar quase rindo de tanta alegria. O ar é sagrado, respira-se pelos poros, pela boca, pelos olhos. Prazer em ver os corpos dançantes fortes, leves e lindos.
Os orixás são desenhados nos braços, pernas, gestos e suas naturezas nos invadem. Durante a aula surge energia, fôlego, vontade, força, brilho, mar, sol e tempestade.
O rito é importante: reverencia-se a dança, a música, os instrumentos, os músicos, os dançantes, os que aprendem e o que ensina .
Reverencia-se a dança.
Ao sair não há fome, sede, sono, dor, cansaço, delírio, prazer… Só há a Dança.

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
(Carlos Drummond de Andrade)
E surge uma pedra de fogo no centro do corpo, que resfria cada parte do sangue. O frio invade, a boca bate, os pelos voam e os olhos tremem.
Respira devagar e longamente.
A pedra poderia ter nome? Dor, culpa, raiva… ou qualquer outra coisa que me definhe.
Respira devagar e longamente.
O vento cobre o abismo aberto e acarinha a ferida aberta.
Respira devagar e longamente.
O abismo é a pedra, o centro do corpo, o sangue, o frio, a lágrima, o beijo, a água, o riso, a dor, o calor, o medo.
Respira, devagar e longamente.
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A fotografia não existiu, mas existiu o vento no rosto, o cabelo voando, o mar beijando a roda, o caminho riscado na areia e desfeito pela onda.
Pedalar correndo, devagar, não pedalar, tirar as mãos, andar com uma mão só, afundar na areia fofa, brincar de fugir da água, cansar as pernas, suar, machucar porque esquece de ser criança.
Lembra! E aposta corrida, olha o céu, o mar, a montanha, o sol e a chuva. Descansa a bicicleta enquanto se mergulha nas ondas e lava o sangue, o suor e o sorriso marítimo.
O dia começando e o dia terminando, a brisa piegas do clima de praia bonita afagou cada sorriso desenhado no horizonte.
Pela noite a areia poderia ser qualquer coisa e a lua espiava de leve, a espuma traçava o limite do espaço entre o pedalar e o sonhar.
O cheiro do sal adoçou o instante.
p.s. é muito gostoso andar de bicicleta na beira do mar…

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