“A filha deve lamentar-se. Fico perplexa com o fato de que as mulheres hoje em dia chorarem tão pouco e, quando o fazem, procuram justificativas. Fico preocupada quando a vergonha ou o desábito começam a eliminar uma função natural. Ser árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar. Chorar faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso. E agora, a vida da donzela como era até então, sua compreensão da vida até esse ponto, terminou, e ela desce para outro nível do mundo oculto. E nós continuamos a acompanhá-la. Prosseguimos, mesmo nos sentindo vulneráveis e tão desprovidas de proteção do ego quanto uma árvore cuja casca foi arrancada. No entanto, temos poder já que aprendemos a atirar o diabo para o outro lado do quintal.

A essa altura percebemos na nossa vida que, não importa o que façamos, os planos do nosso ego fogem das nossas mãos. Haverá uma mudança na nossa vida, uma das grandes, independente dos belos planos que o ego maestro-temperamental tenha para o próximo movimento. Nosso próprio destino poderoso começa a governar nossa vida – não o moinho, não a vassoura, não o sono. Acabou-se a vida como a conhecíamos. Desejamos ficar sozinhas, talvez que nos deixem em paz. Não podemos mais confiar na cultura paterna dominante, estamos envolvidas com o primeiro aprendizado da nossa vida verdadeira. Persistimos.

Essa é uma época em que tudo que valorizamos perde sua graça.”

(Clarissa Pínkola Estés)

A coragem de olhar bem no fundo dos olhos e dos poros ainda assusta, ainda faz hesitar entre uma chuva e outra.

“Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum… E o mundo é perfeito
Hum… E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso

Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o Coração diz que é o mais Bonito

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar

Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito”

(Teatro Mágico)

Ao olhar o céu sente-se forte e leve, voa-se no chão e caminha-se no alto. As nuvens brincam de formas e tons, assim como meus pensamentos e sensações. O vento leva a chuva que poderia cair perto, sente-se algumas gotículas geladinhas e aquele desenho que parecia um menino-palhaço não existe mais. Fez-se outro.

“Dorme, dorme babilônia
Quanto mais quietinha fica
Mais aumenta a insônia
E desperta a retina
Mais atiça a procura
Ao silêncio que inspira

E que pelo ar flutua
Sussurrando pr’onde ir

Vou saindo pela rua
Deixo o som me conduzir
Saio no cordão da insônia
Num bocejo que faz rir

E que pelo ar flutua
Sussurrando pr’onde ir

Vou saindo pela rua
Deixo o som me conduzir
Saio no cordão da insônia
Num bocejo que faz rir

Vou sem medo de altura
Sem perigo de cair
Dorme, dorme babilônia
Faz meu sonho existir.”

(Céu e Beto Villares)

Fechar os olhos e não dormir. A mente colorida de lembranças, ilusões, sonhos e tudo se mistura parecendo tão palpável quanto o cabelo que escorre pelo travesseiro. A respiração se confunde com o piscar de olhos, não se nota, não parte, se parte e reparte em pequenas inspirações, e algumas expirações. A noite adentra acordada e a insônia se faz companheira novamente. O cansaço permanece e se avoluma dentro dos olhos secos e impávidos.

Acordo. Dormi?

“Seja boa para si mesma e crie descansos, sepulturas para aqueles seus aspectos que estavam a caminho de algum lugar, mas que nunca chegaram. Descansos assinalam os locais das mortes, os tempos sombrios, mas eles também são cartas de amor ao seu sofrimento. Eles são transformadores. Há muitas vantagens em prender certas coisas à terra para que elas não  saiam nos perseguindo. Há muitas vantagens em sepultá-las”.

(Clarissa Pínkola Estés)

É chegado o tempo de silenciar e atravessar sem olhar para trás.

Qualquer luto, mudança, fim, está sob o mesmo céu suspenso e alerta. Bem aí, acima, em volta, fora e dentro de nós…

 

Jorge Casais- seguindo o destino

Eu acho que
tenho certeza daquilo que eu quero agora
daquilo que mando embora
daquilo que me demora
eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
daquilo que quero entender
e não acomodar com o que incomoda
não acomodar com o que incomoda
mas

E quando eu vou
é quando eu acho que
onde é que eu tô
é pouco e tanto faz
seja o que for,
seja o que surge e some
seja o que consome mais
seja o que consome mais
faz

e a historia que nem passou por nós direito ainda, pr’onde é que foi?
que a historia nem passou por nós direito ainda, pr’onde é que foi?

(O Teatro Mágico)

Ontem sem luz, hoje sem água e amanhã sem… O que realmente incomoda?

bailarina

“não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase”

(Paulo Leminski)

Ando lenta e silenciosamente entre músicas, haikais, cores, letras, rabiscos, correções, máquina de escrever, artes marciais, bambus, poesias, caminhos, labirintos, vidros e bolsa aberta.

Ali, o pouco que me ocupa, sentou junto para assistir a chuva no vídeo. Um transbordamento de leituras possíveis, faixa preta em dança. O fôlego para sentir o calor brincando com a saia florida.

Pouco do passo / Transborda / Por um triz / Toca

DSC06013

“A maior dor do vento é não ser colorido”

(Mario Quintana)

Hoje o dia se fez azul, tão azul e tão quente, que me pareceu uma provocação ao dia de ontem que se molhou, e adormeceu frio. O vento veio balançar os brincos e cabelos, veio brincar de jogar ameixas e folhas secas nos pratos e copos de sucos, veio se fazer presente de forma indecente na saia rodada.

O vento que trouxe a chuva de quinta, que levou as nuvens para outro lugar, que soprou mansinho nos braços não foi visto, tampoco, notado. Via-se o colorido da saia, do brinco, via-se a ameixa engraçadinha.

E o vento veio, se foi, volta e vai, brinca, sacode, silencia, dança, balança, silencia… faz e faz voltas até ser percebido.

Ele vem contar da mudança permanente, da cor e da não-cor, da chuva e do sol, do silêncio e do som e da dança suspensa na minha respiração e na sua.

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… na sua postura, na minha postura, na postura dele, na postura dela, na postura deles…

Eu só existo aqui porque você existe aí,  portanto você só existe aí porque eu existo aqui. Aí, aqui, aqui, aí… Onde?

Ecoa, coa, acolha…


Por do sol na casa da Vanessa (4)

“Hoje o dia pousou na minha cabeça, e clareou!”

Esse é o sol que pousa na minha janela.

Esse é o sol que nos amanhece.

Esse é o mesmo sol daí/daqui.

“não há sol a sós”

(Arnaldo Antunes)

O sol invade as cores da parede do meu quarto e faz quente o piso frio. As folhas da bananeira enfeitam os prédios quadrados e fazem curva a fotografia do fim daquele sábado. O som interfere no humor de quem ficou sentada o dia todo ouvindo e movimenta redondo as cadeiras. Não se sabe se é minha janela, suas lentes, minha vista, ou se sonhamos mais um dia.

borboleta

“um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar”

(Chico Science)

A chuva amanheceu cantando nas folhas e me acompanhou pelo dia. Fez-me companhia e umedeceu os pés que teimavam dançar no chão molhado. O céu alvo, não limitava um horizonte e as cores residiam francas e calmas. As gotas caíram leves, brincaram de dar sustos nos calçados tímidos e nas calças indiferentes.

A chuva anoiteceu ninando meu desejo de se fazer noite. O escuro iluminava forte, a alma inquieta e pesada desejou se fazer água. Então, dançar no ar, até subir bem alto! E cair, brincando e enfeitando noites de meninas dançadeiras.

“pode estar escrito em algum lugar, ou a gente escreve ao caminhar”

(Bruna Lombardi)

p.s. obrigada pelo lugar!

a

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