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Assisti “Doutores da Alegria – o filme” (2005). O documentário é sobre uma organização que tem como objetivo, levar alegria a crianças hospitalizadas, seus familiares e profissionais da área da saúde. O palhaço, vestido de médico, especializado em “Besteirologia” visita crianças duas vezes por semana nos hospitais, não para disfarçar a doença, mas para possibilitar alegria, lembrar da essência, lembrar da brincadeira, do riso.

Os doutores da alegria exercem a liberdade e oferecem essa possibilidade para os seres que estão no hospital. Ali, naquele lugar em que se vê agulha, soro, olheira, tristeza, cheira-se álcool, éter ou algo parecido… De repente, chegam criaturas vestidas de médicos, com seus narizes vermelhos e lembram, que é sim possível brincar, rir, dançar e cantar, mesmo ao lado da morte.

Sincero e poético. De rir e chorar.

samba

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver

(Chico Buarque)

A batucada inflama o ar, o frio enfeita as roupas coloridas, as saias convidam e a roda se faz.

Para entrar: umbigada, para sair: umbigada.

E sambam todas as cores, todos os corpos, todos amores. E tem brincadeira, tem palmas, tem sedução, tem crença, tem velho e tem novo.

Samba de roda,vem sambar nessa roda?

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“isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além”

(Paulo Leminsky)

Vai, vai, vai, vai…

felicidade

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos”

(Moska)

A sensação do eterno retorno tem-se feito tão presente, sinto um vai-e-vem constante, tal qual o balanço do parque. A fuga, a mordida, a risada, a piada…
Mas tem uma diferença! Tem um olhar de girassol, um olhar amarelo mesmo, olhar de sol, quente que derrete esse frio nascente de inverno.
E nada romântico ou poético! Acontece sempre igual, a ânsia, a música alta, porque as dores e risos são do mesmo filme. É que… agora tenho a sensação de ver esse filme… e chega a ser engraçado.
Ver-se, rir-se, desfazer-se, ter-se, ser-se…

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“Que todas as crianças possam morar com suas famílias.”

“Que todos os animais sejam felizes.”

“Que as pessoas não joguem lixo no chão, nem nos rios.”

“Que todas as pessoas do muuuuuundo sejam felizes!”

(Crianças na sanga kids)

impermanente

“No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.

O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou: – Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.

Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma .

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida… Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile . Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.

Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.”

(Martha Medeiros)

E só silêncio aqui dentro.

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“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Aqui da minha janela o sol se põe nas folhas da bananeira. Lá, mais longe, vê-se alguns prédios, que ganham até uma cor quente, ainda que outono.

O som é qualquer um que música nenhuma poderia chegar tão perto. Um cachorro, uma senhora, uma criança, umas folhas, um pássaro, umas panelas, umas roupas no varal e minha porta que dobra e parece uma sanfona.

O mundo inteiro dentro do meu quarto, uma festa! E pula, e come e canta! Os livros filmando cenas imprevistas, as músicas fazendo piruetas na cozinha!

O silêncio meditativo. O estar em mim que se amplia na festa, na roupa, na dança, na cama, no junto, no nenhum e no qualquer um.

Essa sensação de estranhamento:

“- Oi, meu nome é eu.”

pateo

The heart is a bloom, shoots up through the stony ground
But there’s no room, no space to rent in this town
You’re out of luck and the reason that you had to care,
The traffic is stuck and you’re not moving anywhere.
You thought you’d found a friend to take you out of this place
Someone you could lend a hand in return for grace

It’s a beautiful day
The sky falls and you feel like it’s a beautiful day
Don’t let it get away

You’re on the road but you’ve got no destination
You’re in the mud, in the maze of her imagination
You love this town even if that doesn’t ring true
You’ve been all over and it’s been all over you

It’s a beautiful day
Don’t let it get away
it’s a beautiful day

Touch me, take me to that other place
Teach me, I know I’m not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the bedouin fires at night
See the oil fields at first light and,
See the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colours came out

It was a beautiful day
Don’t let it get away
Beautiful day

Touch me, take me to that other place
Reach me, I know I’m not a hopeless case

What you don’t have you don’t need it now
What you don’t know you can feel it somehow
What you don’t have you don’t need it now
You don’t need it now

Was a Beautiful day…

(U2)

A rua que era tribo.

Imensidão. Borbulhos de gentes, perfumes escuros, passos largos e discretos.

A história que se faz/fez ao caminhar pelos rios/ruas se descortina no céu cinzento, nascendo azul. As igrejas cheias ecoam o silêncio da São Paulo de Piratininga. O bonde rasgando leste/oeste, os cavalos a motor. Olha longe.

O rio que transborda e carrega-nos. Nus.

bonde

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começa desde o aquecimento e as batidas já ecoam forte no sangue. Não se sabe se o calor é de fora pra dentro ou de dentro pra fora…

O som espesso, o canto leve e familiar dos meninos, os movimentos densos. Cada parte do corpo que se move – ou é movida – traz em si o corpo inteiro.

A alfaia foi dar o ar da graça e retumbou ocupando todo o espaço, dançando junto com todas as percussões africanas.

Dançar quase rindo de tanta alegria. O ar é sagrado, respira-se pelos poros, pela boca, pelos olhos. Prazer em ver os corpos dançantes fortes, leves e lindos.

Os orixás são desenhados nos braços, pernas, gestos e suas naturezas nos invadem. Durante a aula surge energia, fôlego, vontade, força, brilho, mar, sol e tempestade.

O rito é importante: reverencia-se a dança, a música, os instrumentos, os músicos, os dançantes, os que aprendem e o que ensina .

Reverencia-se a dança.

Ao sair não há fome, sede, sono, dor, cansaço, delírio, prazer… Só há a Dança.

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“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

(Carlos Drummond de Andrade)

E surge uma pedra de fogo no centro do corpo, que resfria cada parte do sangue. O frio invade, a boca bate, os pelos voam e os olhos tremem.

Respira devagar e longamente.

A pedra poderia ter nome? Dor, culpa, raiva… ou qualquer outra coisa que me definhe.

Respira devagar e longamente.

O vento cobre o abismo aberto e acarinha a ferida aberta.

Respira devagar e longamente.

O abismo é a pedra, o centro do corpo, o sangue, o frio, a lágrima, o beijo, a água, o riso, a dor, o calor, o medo.

Respira, devagar e longamente.

a

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