bailarina

“não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase”

(Paulo Leminski)

Ando lenta e silenciosamente entre músicas, haikais, cores, letras, rabiscos, correções, máquina de escrever, artes marciais, bambus, poesias, caminhos, labirintos, vidros e bolsa aberta.

Ali, o pouco que me ocupa, sentou junto para assistir a chuva no vídeo. Um transbordamento de leituras possíveis, faixa preta em dança. O fôlego para sentir o calor brincando com a saia florida.

Pouco do passo / Transborda / Por um triz / Toca

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“A maior dor do vento é não ser colorido”

(Mario Quintana)

Hoje o dia se fez azul, tão azul e tão quente, que me pareceu uma provocação ao dia de ontem que se molhou, e adormeceu frio. O vento veio balançar os brincos e cabelos, veio brincar de jogar ameixas e folhas secas nos pratos e copos de sucos, veio se fazer presente de forma indecente na saia rodada.

O vento que trouxe a chuva de quinta, que levou as nuvens para outro lugar, que soprou mansinho nos braços não foi visto, tampoco, notado. Via-se o colorido da saia, do brinco, via-se a ameixa engraçadinha.

E o vento veio, se foi, volta e vai, brinca, sacode, silencia, dança, balança, silencia… faz e faz voltas até ser percebido.

Ele vem contar da mudança permanente, da cor e da não-cor, da chuva e do sol, do silêncio e do som e da dança suspensa na minha respiração e na sua.

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… na sua postura, na minha postura, na postura dele, na postura dela, na postura deles…

Eu só existo aqui porque você existe aí,  portanto você só existe aí porque eu existo aqui. Aí, aqui, aqui, aí… Onde?

Ecoa, coa, acolha…


Por do sol na casa da Vanessa (4)

“Hoje o dia pousou na minha cabeça, e clareou!”

Esse é o sol que pousa na minha janela.

Esse é o sol que nos amanhece.

Esse é o mesmo sol daí/daqui.

“não há sol a sós”

(Arnaldo Antunes)

O sol invade as cores da parede do meu quarto e faz quente o piso frio. As folhas da bananeira enfeitam os prédios quadrados e fazem curva a fotografia do fim daquele sábado. O som interfere no humor de quem ficou sentada o dia todo ouvindo e movimenta redondo as cadeiras. Não se sabe se é minha janela, suas lentes, minha vista, ou se sonhamos mais um dia.

borboleta

“um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar”

(Chico Science)

A chuva amanheceu cantando nas folhas e me acompanhou pelo dia. Fez-me companhia e umedeceu os pés que teimavam dançar no chão molhado. O céu alvo, não limitava um horizonte e as cores residiam francas e calmas. As gotas caíram leves, brincaram de dar sustos nos calçados tímidos e nas calças indiferentes.

A chuva anoiteceu ninando meu desejo de se fazer noite. O escuro iluminava forte, a alma inquieta e pesada desejou se fazer água. Então, dançar no ar, até subir bem alto! E cair, brincando e enfeitando noites de meninas dançadeiras.

“pode estar escrito em algum lugar, ou a gente escreve ao caminhar”

(Bruna Lombardi)

p.s. obrigada pelo lugar!

janela

“Só pra curtir
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No canal de panamá

Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Por que é você que sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Só teu sorriso esculpe

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão

Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pros lares de rubis
Pensando nisso
Pensando em ti

Senti felicidade sem fim
Se for passar precisos sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir

Ficar feliz isso sim

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter

Solidão

Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador”

(Carlinhos Brown – Mares de ti)

Comentei há um tempo sobre esse estar em mim, que pode ser a sós ou em meio a uma multidão, pode ser por algumas nuvens ou algumas estações. Sinto um sorriso surgir sempre que essa sensação volta, por outras vezes sinto a dor surgindo no meio do peito.

Estamos sozinhos, com nossos próprios problemas, nossos próprios sonhos, nossa própria dor, nossa própria fome. E nem reparamos que logo ali, há um ser que sente assim também: resolve,  sonha, dói, come.

Tento dançar nesse labirinto que nos abisma há poucos poros, uns dos outros.

doutores-da-alegria02

Assisti “Doutores da Alegria – o filme” (2005). O documentário é sobre uma organização que tem como objetivo, levar alegria a crianças hospitalizadas, seus familiares e profissionais da área da saúde. O palhaço, vestido de médico, especializado em “Besteirologia” visita crianças duas vezes por semana nos hospitais, não para disfarçar a doença, mas para possibilitar alegria, lembrar da essência, lembrar da brincadeira, do riso.

Os doutores da alegria exercem a liberdade e oferecem essa possibilidade para os seres que estão no hospital. Ali, naquele lugar em que se vê agulha, soro, olheira, tristeza, cheira-se álcool, éter ou algo parecido… De repente, chegam criaturas vestidas de médicos, com seus narizes vermelhos e lembram, que é sim possível brincar, rir, dançar e cantar, mesmo ao lado da morte.

Sincero e poético. De rir e chorar.

samba

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver

(Chico Buarque)

A batucada inflama o ar, o frio enfeita as roupas coloridas, as saias convidam e a roda se faz.

Para entrar: umbigada, para sair: umbigada.

E sambam todas as cores, todos os corpos, todos amores. E tem brincadeira, tem palmas, tem sedução, tem crença, tem velho e tem novo.

Samba de roda,vem sambar nessa roda?

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“isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além”

(Paulo Leminsky)

Vai, vai, vai, vai…

felicidade

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos”

(Moska)

A sensação do eterno retorno tem-se feito tão presente, sinto um vai-e-vem constante, tal qual o balanço do parque. A fuga, a mordida, a risada, a piada…
Mas tem uma diferença! Tem um olhar de girassol, um olhar amarelo mesmo, olhar de sol, quente que derrete esse frio nascente de inverno.
E nada romântico ou poético! Acontece sempre igual, a ânsia, a música alta, porque as dores e risos são do mesmo filme. É que… agora tenho a sensação de ver esse filme… e chega a ser engraçado.
Ver-se, rir-se, desfazer-se, ter-se, ser-se…

a

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